Geraizeiros

Os Geraizeiros são povos que se localizam à margem direita do Rio São Francisco no Norte de Minas Gerais. O nome vem da denominação gerais, ou seja, planaltos, encostas e vales das regiões de cerrados. Os gerais constituem um local em que todos têm livre acesso, local comum como um grande quintal, espaço de todos onde é possível a colheita de frutos nativos como: Pequi, Panan, Coquinho azedo dentre outros e que são vendidos pelas ruas ou nas feiras para complementar a renda familiar. Além disso, é um local onde o gado é criado solto; também é possível a extração de lenha para o preparo dos alimentos ou dos produtos que necessitam de fogo para serem preparados e que também são comercializados nas feiras do mercado local.
Esses povos são pequenos agricultores que vivem do plantio de lavouras diversificadas como lavoura de milho, feijão, mandioca, cana-de-açúcar, frutas, verduras e são grandes conhecedores de ervas medicinais. Eles desenvolveram um modo de vida muito peculiar, associando a produção de alimentos e a criação de animais com o extrativismo. Os cultivos guardam uma rica diversidade de espécies e variedades e os Cerrados com suas transições (Caatinga/Carrasco) fazem parte da estratégia produtiva fornecendo, de forma extrativista, alimentação para o gado, caça, madeira, lenha, frutos, folhas, mel e medicamentos.
Esse povo, habitante dos cerrados, tem lutado pela garantia de seus direitos de permanecerem em suas terras, preservando suas tradições. No entanto, essa luta é muito desigual e com o passar dos dias se torna cada vez mais difícil devido ao avanço da monocultura, o chamado “Deserto Verde” que, dia-a-dia, adentra por suas terras, além de desmatarem o cerrado para transformá-lo em carvão. Com o monocultivo do eucalipto ocorre a degradação do solo, o secamento das nascentes, dificultando a permanência dos geraizeiros que estão sendo encurralados. No entanto, eles permanecem firmes, resistindo ao cercamento de suas terras, mesmo sendo obrigados a enfrentar a expropriação de suas terras e a degradação dos recursos naturais.
Notícia relacionada: Geraizeiros ameaçados reagem contra monocultura do eucalipto
26 comunidades rurais encurradas pelo eucalipto no norte de Minas
7 de maio de 2003
Representantes de 1200 famílias de 26 comunidades rurais que foram expropriados e encurralados pela monocultura do eucalipto no município de Rio Pardo de Minas apresentaram ao Secretário Extraordinário de Assuntos da Reforma Agrária, Deputado Marcelo Gerônimo Gonçalves, ao Presidente do ITER, Dr. Luiz Chaves, e ao Presidente da FETAEMG, Vilson Luiz da Silva, um documento com proposta de reconversão da monocultura de eucalipto para sistemas agrosilvipastoris.
O evento aconteceu no dia 25 de abril de 2003 na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Pardo de Minas e contou com a participação de mais de 200 pessoas, agricultores e agricultoras familiares que vem lutando contra a monocultura do eucalipto no município. Participaram também o diretor e técnico do CAA NM que vem colaborando com o sindicato e comunidades na elaboração de uma proposta de reocupação das terras que foram arrendadas para empresas reflorestadoras nas décadas de l970 e l980 pelo Governo do Estado de Minas Gerais. As terras que foram arrendadas eram onde viviam milhares de Geraizeiros, uma das populações tradicionais que vivem nos cerrados do Norte de Minas – no Norte de Minas as regiões de cerrado são conhecidas como GERAIS, daí o termo Geraizeiro. Este arrendamento, além da expulsão ou do encurralamento das famílias de geraizeiros, provocou um grande impacto ambiental pelo plantio da monocultura de eucalipto.
Com o término dos contratos de arrendamento das terras públicas para as empresas reflorestadoras, as empreiteiras e empresários começaram a se organizar, com o apoio da Prefeitura Municipal, para a retomada do plantio da monocultura do eucalipto. Os agricultores sentindo-se ameaçados, temendo a repetição do processo de degradação ambiental e humana que se verificou na região nas últimas décadas, começaram a se mobilizar para garantir a sobrevivência e permanência nas suas localidades.
Durante os últimos quatro meses foi realizado um intenso processo de mobilização e discussão nas comunidades atingidas pela monocultura do eucalipto. Nestas reuniões avaliou-se o impacto da monocultura nos recursos naturais e na vida da comunidade e foram sendo presentadas sugestões de como deveria ser a reocupação destas áreas. Este processo culminou na assembléia geral das comunidades atingidas pela monocultura do eucalipto realizada no dia 06 de abril na comunidade de Brejinho. Naquele momento foi apresentada, debatida e aprovada o projeto que ficou denominado: RECONVERSÃO AGROEXTRATIVISTA – da monocultura do eucalipto para sistemas agrossilvipastoris.
Este projeto propõe reconverter 75.000 ha de terras do município que foram intensamente degradadas nos últimos 30 anos para sistemas agroextrativistas beneficiando diretamente 750 famílias de geraizeiros, sem terra e com pouca terra, que vivem acuadas nas grotas, veredas e brejos do município. A proposta prevê o acesso das famílias à 30.000 ha que vão ser recuperadas para plantios diversificados associados com sistemas agroflorestais e silvipastoris. Os 45.000 ha restantes serão destinados para recomposição ambiental visando o extrativismo sustentável ou como áreas de preservação ambiental. É uma proposta que pode revolucionar a produção agropecuária, gerando emprego e renda com cadeias produtivas que vão revitalizar a economia local.
Durante a reunião no sindicato, o geraizeiro Dizim Manoel dos Santos, morador da comunidade de Buracão, afirmou que ‘as firmas recuou eles na beira do brejo, obrigando eles a utilizarem apenas estas áreas para sobreviverem. Além disso, os brejos estão acabando com o assoreamento provocado pelas erosões e enxurradas que escorrem das terras com a monocultura’. Outro morador da comunidade de Carrascão, Sr. José de Paula, falou que está sendo ameaçado de prisão pela empresa Gerdau por ter cercado a cabeceira de uma nascente que estava sendo destruída pela reflorestadora.
Mais de 20 famílias dependem desta água para sua sobrevivência. Segundo o Diretor da Secretaria de Reforma Agrária do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Pardo de Minas, o geraizeiro Eliseu José de Oliveira, da comunidade de Pindaíba, ‘Esperamos que esta proposta possa ampliar o debate sobre a oportunidade da reincorporação das terras públicas com uma perspectiva de reativação sócio-econômica e ambiental do município de Rio Pardo de Minas. Não é uma proposta acabada. É preciso que seja aprimorada tecnicamente e que seja ainda mais debatida nas comunidades e envolvendo o poder público municipal, estadual e federal.’
Fonte: Recid e CAA-Norte de Minas email: caa_nm@connect.com.br.