Caatingueiros

Caatingueiros

Os habitantes das regiões dominadas pela caatinga são conhecidos como Caatingueiros, por serem assim denominados pelas populações que residem nas áreas de gerais. Na caatinga os solos normalmente são mais férteis, mas, por outro lado, há menor disponibilidade de água. Os caatingueiros desenvolveram a habilidade de cultivar plantas mais resistentes à seca, como o algodão e uma infinidade de variedades locais de feijão, milho, amendoim, mamona, etc. Também desenvolveram a habilidade de criar o gado e manejar pastagens nativas e exóticas, adaptadas às condições de semi-aridez da região (Dayrell, 1998: 73).

Segundo um caatingueiro:

“a Caatinga é assim: ela é um pouco rasteira, mas também é uma vegetação alta. Nessa época do ano [Janeiro] ela está verde, daqui a pouco tempo começa amadurecer, cai tudo as folhas, fica parecendo mesmo Caatinga. Na época de agosto pra setembro, ih! Essa Caatinga aqui é braba, você não vê nenhuma folha. Quanto aos solos, tem região que é plana, tem região que é morrada; quando você pega uma região de serra mesmo, a vegetação diferencia um pouco. Os solos são férteis, é solo de produzir mesmo, de trabalhar mesmo… em algumas regiões você encontra muita pedra, cascalhada, em outras você dificilmente encontra pedra, é aquela terra mais maciça mesmo de cultivo” (Adão Custódio, trabalhador rural de Porteirinha).

Em termos de produção, a Caatinga é muito diversificada: feijão, milho, sorgo, algodão, verduras, frutíferas, mas o que predominou historicamente foi o algodão. De frutas nativas temos o umbu, a pitomba, Jatobá, cagaita, jaca, dentre outras. O catingueiro vende verduras, hortaliças, mandioca, abóbora, batata, milho, feijão, derivados do leite; a Caatinga tem um grande potencial leiteiro (leite, queijo, requeijão, ricota, doce, etc.); também a carne de gado, galinha, porco. Além de muitas frutíferas introduzidas, como o abacaxi, a acerola, a manga, a banana, dentre outras. O caatingueiro compra do geraizeiro pequi, farinha, goma, café, arroz, rapadura, cachaça, muitas frutas, raízes e plantas medicinais, dentre outros produtos.

Além da produção de carne, as áreas de caatinga apresentavam uma tendência à especialização na produção do algodão. Na década de 1980 e 90, a cultura do algodão se constituiu em uma monocultura praticada intensivamente por centenas de agricultores familiares, estimulados pelos preços do produto e pelas facilidades oferecidas pelos programas governamentais. Em poucos anos os agroecossistemas diversificados dos caatingueiros, destinados à produção de fibras, alimentos e criação de animais, cederam lugar à homogeneização dos sistemas considerados modernos (Dayrell, 1998: 88-89). Em 1992, a crise gerada pela entrada do bicudo e pelos baixos preços pagos pelo algodão obrigou a uma drástica diminuição do plantio do algodão. A pecuária de leite foi uma das poucas alternativas que restaram aos camponeses que possuíam uma gleba de terra um pouco maior e que resistiram durante este período crítico, entre eles, os que continuaram apostando na diversidade de cultivos (Idem, Ib:89).

Fonte: “Gurutubanos, caatingueiros e geraizeiros: identidades rurais, terriotorialização e protagonismo” (2008), de Aderval Costa Filho, Mestre e Doutorando em Antropologia Social pela UnB. Leia a íntegra do artigo citado aqui.

Bibliografia citada: 

DAYRELL, Carlos Alberto. Geraizeiros e biodiversidade no norte de Minas: a contribuição da agroecologia e da etnoeconologia nos estudos dos agroecossistemas tradicionais. Dissertação de Mestrado. Andaluzia: Universidade Internacional de Andaluzia. 1998.