Metodologia
A Ocareté desenvolve uma metodologia em que todos são considerados sujeitos da ação e onde se dá a construção coletiva do processo de trabalho. Essa metodologia se fundamenta na pedagogia libertadora da educação popular idealizada por Paulo Freire.
A educação popular é um modelo de educação não-formal que parte do entendimento que o processo educativo consiste em encontrar no indivíduo uma identidade coletiva, de forma que o conhecimento construído pelo educando, mediado pelo educador, faça sentido diante do mundo em que aquele vive. Desta forma, ninguém educa ninguém, todos se educam mediatizados pelo mundo. Quando se trata de povos e comunidades tradicionais, essa identidade coletiva já existe ou na vida concreta ou no imaginário das pessoas e é dessa identidade da tradição que partimos para desenvolver nosso trabalho, que tem como fio condutor a ancestralidade e o universo simbólico desses povos e comunidades.
A Ocareté criou um método de educação popular com povos e comunidades tradicionais que tem como centro a busca de uma “leitura entre mundos” que se dá na forma de “Ocaras“, círculos de cultura interétnicos de conscientização sobre a problemática socioambiental e os desafios dos grupos étnicos frente à sociedade envolvente. As Ocaras agrupam diversos recursos pedagógicos e instrumentos metodologicos tais como:
- cartografia social com mapeamento participativo;
- teatro (iniciação teatral, Teatro do Oprimido e suas modalidades);
- produção coletiva de conhecimento (textos coletivos);
- arte-educação;
- jogos cooperativos;
- pesquisa ação (pesquisas participantes);
- diálogos intergeracionais, contação de histórias (com levantamento do universo simbólico através de histórias de vida e memória oral);
- educação ambiental, dentre outros.
A partir de cada módulo de “Ocara”, a Ocareté gera problematizações, idéias e produtos que depois levarão a ações específicas de defesa de direitos, moblização social e projetos de desenvolvimento local em que os próprios povos e comunidades tradicionais são autores, sujeitos, executores e beneficiários. Isso se dá por meio da segunda linha de ação da Ocareté, caracterizada por ações de advocacy e mobilização e organização política, bem como de elaboração e mediação de projetos comunitários. A tônica da atuação política está na busca do reconhecimento e garantia de direitos desses povos, com especial ênfase em sistemas e modelos diferenciados de saúde e educação, ou seja, na busca de recortes étnicos nas políticas públicas.
Porque educação popular no contexto brasileiro?
No Brasil, a sociedade é historicamente marcada pelo domínio econômico de pequenos grupos, concentradores da riqueza, sobre a maioria, rica de pobreza e dependente epistemologicamente. Em outras palavras, há uma opressão da classe economicamente dominante perante a classe numericamente dominante, que se dá também em nível de conhecimento. Uma população ignorante é mais fácil de ser manipulada do que uma população informada que pensa livremente. O conhecimento é uma forma de poder.
A autonomia de grupos culturais na construção de seu próprio saber, é, portanto, essencial para uma sociedade onde o indivíduo seja efetivamente livre. No dia-a-dia vemos uma liberdade controlada dentro de limites impostos pela democracia burguesa, onde ser livre é votar entre os candidatos escolhidos pelas instituições já estabelecidas. Liberdade, entretanto, é um valor individual e coletivo, e por isto faz parte do processo educativo, da construção popular do conhecimento.
O processo de Educação Popular tem que ser indutivo e não dedutivo. Devemos partir do educando porque é a única maneira de partir da experiência do grupo, senão vamos continuar partindo da idéia dos educadores. O processo pedagógico se estrutura a partir do incentivo a que pessoas e grupos produzam conhecimento sobre sua própria realidade, como instrumento de transformá-la. A idéia inicial é provocar inquietações e estimular a busca por alternativa para os problemas encontrados. Neste contexto, buscamos aliar o saber técnico e o saber popular, com base no princípio de que não há um conhecimento pronto e acabado. É o processo de interação e questionamentos mútuos, que produz o novo saber, necessário e básico à comunidade para alterar sua realidade e sua vida.
A comunidade é o sujeito do processo e torna-se importante trabalhar a dimensão de organização coletiva, atuando no questionamento e na produção de políticas públicas, e na fiscalização de sua execução. Nesta metodologia, a paciência pedagógica é um elemento estratégico para evitar imposições de conhecimento, pois o caminhar da comunidade não tem o mesmo ritmo do caminhar técnico.